O texto abaixo foi escrito pelo Deputado Estadual do Paraná Luiz Eduardo Cheida, tratando com seriedade necessária as questões pertinente aos estudos toxicológicos e o uso de animais em laboratório, senão vejamos:
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Para se colocar um remédio na praça, primeiro dá para um bicho engolir. Morreu? Reduz a dose e tenta de novo! Sobreviveu? Bota no balcão da farmácia que o negócio é faturar!
E, na poeira destas experiências com animais, diria Laurinho, meu prezado de Alto Alegre:
- Muito macaco, rato e coelho foi esperdiçado.
Para ser quase preciso, pois não há quem saiba o número de cobaias submetidos a experimentos científicos no mundo, estima-se que a cada ano, só os EUA usem 35 milhões de animais; o Japão, 8 milhões e a Inglaterra, 4 milhões. Não se contam aí a França, Itália, Suíça, Bélgica, Canadá e seus impérios farmacológicos e de cosméticos, e 160 países mais, que também fazem experimentos, na imensa maioria, inúteis.
A requisição destes milhões de seres, durante os últimos cem anos, aos poucos fez vicejar e agigantou uma verdadeira indústria de gaiolas, mordaças, cordas, algemas, seringas, agulhas, soros, medicamentos, esteiras, fios e cabos para choques elétricos, capacetes eletrificados, laboratórios, profissionais, rações, vacinas animais e um império comercial que vai da procriação à entrega do animal.
As cobaias sentem o que nós, humanos, sentimos. Caso não sentissem, como justificariam experimentos com alguma utilidade a humanos?
Por isso, as experiências induzem nelas dor, angústia, ansiedade, desespero, incontáveis perturbações psicológicas, zumbidos, desorientação, sono, insônia, sede, fome, vômitos, anemia, febre, hipertensão arterial, arritmia cardíaca, diarréias, paralisias, convulsões, sangramento digestivo e morte.
São experimentos como os que pingam tinta de caneta, corante, cosméticos, batom, cera para assoalho, alvejantes, xampus e produtos de limpeza nos olhos de coelhos. Ou as que os obrigam a ingerir papel, sem parar. Ou choques elétricos nas patas de cachorrinhos que não podem fugir. Ou doses letais de radiação química e gases neurotóxicos em macacos. Ou a ingesta, por cães, de cápsulas de nitroglicerina. Ou choques em peixes. Ou a abertura da caixa craniana de macacos vivos. Ou dores em pôneis...
Por tudo isso e muito mais, naquela noite, as cobaias marcaram reunião de emergência. A gaiola de uma arara recém-chegada, envergonhada pelas quatro outras cores adquiridas já nas agulhadas do primeiro experimento, recebeu a todos. Estufado, o local não cabia mais um hamster.
- Deixa disso, arara! Olha para mim, um legítimo rato pelado, carregando esse implante de cabelo...
- E eu não estou mais bonita que você – tentou ajudar a lebre – piscando um olho azul e outro vermelho...
A anfitriã relaxou, seu intestino funcionou, e a reunião pôde começar.
O macaco, circunspecto, explicou o ponto de pauta:
- É daqui para o cemitério! Não há como escapar.
Um lamento uníssono percorreu o recinto. Ele continuou:
- Todas as rotas de fuga foram testadas. Quem tentou, falhou. Não podemos persistir. Já perdemos companheiros demais.
- Não há mais nenhuma cobaia?
O sarcasmo foi recebido com total indignação.
- O que fazemos? – suplicou a porquinha sem o útero, com três mamas ainda intactas, e sem os dentes de cima.
- Se não há como sair, vamos reduzir o número dos que podem entrar.
- Sensato – rosnou um cão fluorescente.
E, em meio a um clima de invejável solidariedade, para com cobaias que jamais sonhavam entrar naquele local, foi que o grupo resolveu não mais colaborar.
Ao raiar o sol, no primeiro choque matinal, o cão começou a miar. Confuso, o experimentador humano deixou-o e foi colocar máscaras de gases tóxicos nas narinas de coelhinhos recém-nascidos. Mas, os ratos haviam roído o tubo que acessava o compressor. Por isso, os coelhinhos sorriam, ao invés de, como era esperado, guincharem, babarem e debaterem-se. Não crendo no que via, ele tentou checar uma última experiência: provocar parada cardíaca com 2 mililitros de adrenalina em macaco Rhesus. Mas, a água destilada que, durante a noite, sorrateiramente, substituiu a adrenalina do frasco, permitiu que o futuro moribundo abrisse os braços e, num terno abraço, como um igual, acalentasse o pesquisador.
Foi muito!
Estarrecido, com os olhos esbugalhados; as mãos tateando o ar, em puro desespero, o experimentador saiu, trôpego, balbuciando frases desconexas e, na ânsia de se ver livre daquele verdadeiro manicômio em que tinha se transformado seu pacato e ordeiro laboratório, esqueceu a porta aberta e aquelas vidas condenadas puderam, para sempre, fazer aquilo para o qual haviam nascido: viver.
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Leia mais no site do Deputado Cheida
Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia da Assembléia Legislativa do Paraná. Premiado pela ONU por seus projetos ambientais, foi prefeito de Londrina, secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
domingo, 28 de agosto de 2011
Aves, Antibióticos e Superbactérias
Deu na UOL - Scientific American Brasil.
por Katherine Harmon
O governo americano está na berlinda em razão das revelações de que sabia sobre a Salmonella resistente a antibióticos presente em produtos elaborados a partir de carne de aves e que já matou pelo menos uma pessoa e infectou mais de 100 em todos os Estados Unidos. Embora a Salmonella atinja principalmente a carne de peru, a prevalência de bactérias imunes a medicamentos comuns está em ascensão em fazendas de pecuária, justamente os locais em que a maior parte dos antibióticos é utilizada nos Estados Unidos.
Mas sendo orgânicas, essas granjas podem reduzir a quantidade de bactérias resistentes aos antibióticos em uma única geração por quase cinco vezes, segundo novo estudo publicado esta semana na Environmental Health Perspectives.
“Ficamos surpresos ao ver que as diferenças foram tão significativas entre várias classes diferentes de antibióticos, mesmo na primeira leva que foi produzido após a transição para padrões orgânicos”, afirma Amy Sapkota, da University of Maryland School of Public Health, coautora do novo estudo.
A equipe estudou as bactérias Enterococcus, que são comuns em aves e também frequentemente encontradas em hospitais. Elas podem ficar imunes a tratamentos com antibióticos, o que as torna “um bom modelo para estudar o impacto das mudanças no uso de antibióticos em fazendas”, disse Sapkota.
Em humanos, pode causar infecções do trato urinário, infecção do sangue, inflamação do coração e até mesmo meningite. E quando essas bactérias se tornam resistentes aos antibióticos, as infecções são mais difíceis e às vezes impossíveis de tratar com medicamentos disponíveis.
Os avicultores não podem esperar livrar-se das bactérias por completo, mas ao reduzir a exposição das aves aos antibióticos a diminuição da quantidade de bactérias que criam resistência não apenas é possível, mas também rápida. A primeira geração de aves criadas organicamente em fazendas anteriormente convencionais teve menos incidências da superbactéria. Testes na água e nos alimentos das aves mostraram que em 10 das novas fazendas orgânicas, cerca de 17% das bactérias Enterococcus se mostraram resistentes a várias classes de antibióticos, enquanto em 10 fazendas que continuaram criando as aves por métodos convencionais, com uso de antibiótico profilático, algo em torno de 84% das bactérias havia desenvolvido resistência a múltiplas drogas.
“Essas descobertas mostram que, pelo menos no caso da Enterococcus, começamos a reverter a resistência em fazendas entre o primeiro grupo de animais que são cultivados sem antibióticos”, disse Sapkota, “o que é muito encorajador.”
Veja na UOL - Scientific American Brasil.
por Katherine Harmon
O governo americano está na berlinda em razão das revelações de que sabia sobre a Salmonella resistente a antibióticos presente em produtos elaborados a partir de carne de aves e que já matou pelo menos uma pessoa e infectou mais de 100 em todos os Estados Unidos. Embora a Salmonella atinja principalmente a carne de peru, a prevalência de bactérias imunes a medicamentos comuns está em ascensão em fazendas de pecuária, justamente os locais em que a maior parte dos antibióticos é utilizada nos Estados Unidos.
Mas sendo orgânicas, essas granjas podem reduzir a quantidade de bactérias resistentes aos antibióticos em uma única geração por quase cinco vezes, segundo novo estudo publicado esta semana na Environmental Health Perspectives.
“Ficamos surpresos ao ver que as diferenças foram tão significativas entre várias classes diferentes de antibióticos, mesmo na primeira leva que foi produzido após a transição para padrões orgânicos”, afirma Amy Sapkota, da University of Maryland School of Public Health, coautora do novo estudo.
A equipe estudou as bactérias Enterococcus, que são comuns em aves e também frequentemente encontradas em hospitais. Elas podem ficar imunes a tratamentos com antibióticos, o que as torna “um bom modelo para estudar o impacto das mudanças no uso de antibióticos em fazendas”, disse Sapkota.
Em humanos, pode causar infecções do trato urinário, infecção do sangue, inflamação do coração e até mesmo meningite. E quando essas bactérias se tornam resistentes aos antibióticos, as infecções são mais difíceis e às vezes impossíveis de tratar com medicamentos disponíveis.
Os avicultores não podem esperar livrar-se das bactérias por completo, mas ao reduzir a exposição das aves aos antibióticos a diminuição da quantidade de bactérias que criam resistência não apenas é possível, mas também rápida. A primeira geração de aves criadas organicamente em fazendas anteriormente convencionais teve menos incidências da superbactéria. Testes na água e nos alimentos das aves mostraram que em 10 das novas fazendas orgânicas, cerca de 17% das bactérias Enterococcus se mostraram resistentes a várias classes de antibióticos, enquanto em 10 fazendas que continuaram criando as aves por métodos convencionais, com uso de antibiótico profilático, algo em torno de 84% das bactérias havia desenvolvido resistência a múltiplas drogas.
“Essas descobertas mostram que, pelo menos no caso da Enterococcus, começamos a reverter a resistência em fazendas entre o primeiro grupo de animais que são cultivados sem antibióticos”, disse Sapkota, “o que é muito encorajador.”
Veja na UOL - Scientific American Brasil.
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